“Acordei aos berros, com os olhos arregalados, coração acelerado e completamente assustada. Alguma coisa muito perturbadora invadiu meus pensamentos e não me deixou dormir em paz. Peguei o celular meio zonza e olhei para as horas: exatamente cinco da manhã. De qualquer forma não conseguiria dormir de novo então não me preocupei com isso, mas tentei ocupar minha mente com lembranças melhores. E fiquei ali imaginando coisas um tanto quanto surreais, imaginando um futuro perfeito. Com todos os mínimos detalhes. Mas sabia que meu futuro está bem longe de ser perfeito. Me voltei para o celular para olhar as horas de novo e notei uma chamada perdida. O nome dele, o número dele. Precisei olhar inúmeras vezes para me certificar. Pensei ser muito cedo para retornar mas estava no meio da madrugada quando ele me ligou, então não hesitei na hora que liguei de volta. E ele atende com a voz bem revigorada.
— Finalmente.
— O quê?
— Tô desde quinze para as três esperando você me atender ou retornar.
— Desculpa. Não é muito comum me ligarem a essa hora.
— Imagino. Mas precisava conversar.
— Sobre o que?
— Tive um pesadelo horrível.
— Nossa. Eu também.
— Precisava de uma voz para me acalmar e seu número foi o primeiro que me veio a mente.
— Foi bom você me ligar. Meu coração está acelerado.
— Por causa do pesadelo né. O meu também.
— Pelo pesadelo e pela ligação — Não tenho certeza de que ele me ouviu, porque a vergonha tomou conta da minha voz.
E a gente fica ali, sem falar nada por um tempo.
— Alô. Ainda tá ai? — Ele se certifica.
— Estou. Aliás, foi bem naquela prova que você disse que… — Ele me interrompe.
— Coloca… Coloca mais perto do seu coração.
— Oi?
— O telefone. Deixa eu ouvir seu coração batendo e coloca no viva-voz.
Faço o que ele pediu, coloco no viva-voz e aproximo do meu peito. Meu coração volta a pulsar descontroladamente, como se fosse de propósito para ele ouvir melhor.
— Tá nervosa? — Dá para perceber uma risadinha discreta.
— Um pouco.
— Se acalma.
A gente fica estático por um tempo. Um tempo que nem vi passar. Quando me dei conta eram seis e quinze da manhã.
— Nossa, preciso me arrumar. Tenho aula — Com que cabeça vou para a aula… Não sei.
— Espera.
— Eu poderia, mas a aula não pode.
— Tudo bem.
— Não vai insistir nem mais um pouquinho?
— Fica? Mais cinco minutinhos? Dez?
— Fico — Rimos juntos.
— Se eu soubesse que seria tão fácil…
— Que que tem?
— Se eu soubesse que seria tão fácil te convencer das coisas.
— Se você soubesse…
— Eu teria te pedido para namorar comigo antes.”
“Sentar na cadeira e olhar pro teto é sinônimo de ligar pra você e perguntar sobre nós.
— Alô — Você atende com uma voz mansinha, do tipo que parece que acabou de acordar.
— Oi? Eu não deveria ligar para você mas estou ligando assim mesmo porque como você sabe, eu nunca faço aquilo que deveria ser feito, só faço o contrário.
— Ah, oi. — Você responde seco.
— Eu só preciso dessa ligação, tá legal? Mais nada. Depois que eu desligar esse telefone você pode xingar palavrões e me odiar eternamente, mas enquanto eu estiver falando, você vai ficar calado e ouvir toda a merda que eu tenho pra te dizer, embora não tenha mais importância.
— Pode falar, eu tô ouvindo. — Foi arrogante, hipócrita e sarcástico em apenas uma frase.
— A gente se conheceu quando eu era um monte de nada e você parecia demais pra mim. Quando eu estava desacreditada de tudo e só queria sossego, paz e distância de tudo aquilo que você era. Eu não queria me envolver, juro que não, eu sempre quis que tudo fosse só um joguinho para nós dois, mas não, não foi assim e parece que desde a primeira semana a gente sabia que ia ser diferente e que não dava mais pra correr de tudo que estava chegando. Eu sabia que era amor, eu sempre soube e vivia repetindo que não era, que era carência. Lembro daquele dia que a gente foi comer no meu quarto e eu te servi café e biscoitos, mas você recusou e disse que era alérgico a café e vomitava todas as vezes que comia biscoito doce. Você olhou pra mim com cara de cachorro pidão e eu percebi que você era mais frágil do que parecia ser e que naquela hora, naquela merda de hora, era a hora que eu devia dizer que te amava. E, incrivelmente, você disse “eu te amo” de volta. Aí a gente transou o dia inteiro. Mas dane-se isso, o que importa, o que sempre importou é que a gente se amava de maneira saudável sem muita coisa pra magoar caso alguma coisa acontecesse, alguma coisa do tipo que você fosse embora e parasse de me amar com a mesma rapidez que a gente bebe refrigerante e arrota. E essa porra de “alguma coisa” aconteceu a dez dias atrás quando você riu e disse que tinha me superado. Eu não consigo entender como alguém pode superar algo que tem nas mãos e que até na noite anterior você jurava amar. Engraçado como você esquece tudo que sentia por mim em apenas alguns minutos, pega o telefone, me liga e diz que acabou. Eu nunca vou aceitar o nosso fim, não desse jeito ridículo que acabou. Porque era mais simples você nunca ter aberto a boca pra dizer que me amava. E pior do que você ir embora dizendo que me superou, é saber 10 dias depois que você já tá por aí andando de mãozinha dada com aquela loira que eu sempre detestei e que você sempre olhou pra bunda dela. Eu juro que pensei que você tava sofrendo e arrependido, eu juro, cara. Eu olhava pro telefone, pro computador, pro portão, esperando qualquer sinal seu, sei lá, esperando você me pedir desculpas e dizer que estava com saudades. Então 10 dias depois você já está com outra comprovando pra todo mundo que já me superou. Mas eu só quero entender uma coisa, uma única e maldita coisa que não me deixa dormir: Como você consegue superar alguém que jurou amar a vida inteira, em apenas 10 dias?
— (…).
— Anda, eu tô esperando a tua resposta. Depois que você me responder, eu prometo esquecer o teu número e nunca mais vou te perturbar. Só me responde como você conseguiu superar alguém que jurou amar a vida inteira, em apenas 10 dias.
— Se eu amasse esse alguém mesmo, eu não teria o superado em 10 dias.
(Chamada encerrada.)”